Por muitos anos a América do Sul desfrutou de usual vantagem geopolítica, a indiferença do Estados Unidos, outrora focado no leste europeu e no oriente médio, permitiu aos países da região aumentar a integração entre si, bem como comercializar no mundo como fosse mais vantajoso.
Ao longo da última década a China foi mais competitiva e ganhou cada vez mais espaço, atualmente seis países da América do Sul tem mais comércio com a gigante asiática do que com os Estados Unidos: Brasil, Chile, Peru, Argentina, Uruguai e Venezuela.
As trocas comerciais aumentaram o interesse chines por investimento, a influência antes meramente comercial passou a se converter em investimentos diretos em infraestrutura em diversos países da região: um mega porto no Peru no valor de 3,5 bilhões de dólares, projetos de infraestrutura espacial e mineração no Brasil ou a modernização de linhas férreas na Argentina como exemplos.
A perda do monopólio da influência em uma região que o Estados Unidos consideram seu pátio traseiro provocou inicialmente reações distintas, a general norte-americana Laura Richardson, ex-comandante do U.S. Southern Command defendeu em seu mandato um "Plano Marsahll para a América do Sul", ou seja, investimentos massivos e diretos na América Latina. Porém os planos em Washington são bem mais restritivos.
Nem mesmo a liderança de Marco Rubio, de origem cubana, no Departamento de Estado pode suavizar os ventos por essas bandas, muito pelo contrário, longe de qualquer visão otimista ou até mesmo longe de qualquer visão própria de Rubio antes de assumir um cargo na Administração Trump, o intervencionismo americano no continente está mais em alta do que nunca.
Coerção contra Panamá, taxas extras ao Brasil, intervenção militar na Venezuela e acordos questionáveis na Argentina, mostram duas faces reais do Estados Unidos sob Trump, primeiro o uso do poder comercial e militar como hard power clássico para atingir seus interesses e segundo a incapacidade americana de competir comercialmente com a China.
Na verdade, a Doutrina Donmore, uma espécie de resgate da Doutrina Monroe turbinada pelo trumpismo, onde o continente americano pertence aos Estados Unidos, cabendo aos demais apenas a sorrir e acenar aos desejos particulares de Trump tem dado muito poucos acenos e cobrado um preço muito alto.
| Trump e Milei em alguma de suas tantas visitas |
O alinhamento automático total de Javier Milei, presidente da Argentina, aos caprichos de Trump prometia inicialmente um Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos, que teve que ser reduzido a um "Acordo Reciproco" que virou muito mais um termo de ajustamento do que um acordo em si.
Vejamos: em 37 páginas o acordo estabelece por ao menos 34 vezes concessões que a Argentina deverá fazer, se compromete ou garante, ao passo que 8 vezes estabelece que os Estados Unidos "apoiará", "facilitará" ou "promoverá". Além de numérico, a assimetria também se dar por termos vagos nas "obrigações" do EUA.
O Estados Unidos tem muito pouco a oferecer a região, não consegue igualar a competividade chinesa e necessita de lideres subalternos na região para que seus interesses sejam impostos a troco de migalhas, se não tiver satisfeito, o porrete.
Em sua nova e mais recente politica para "seu hemisfério", a Administração Trump definiu o "combate ao tráfico" como prioridade. Determinou o uso de força militar na região do Caribe para "inibir a entrada de drogas" em seu país. Algumas execuções extra judiciais depois, a operação acabou na prisão de Nicolas Maduro e na presidência de Delcy Rodrigues, que entre outras coisitas, garantiu o controle norte-americano sobre o petróleo venezuelano.
Sobre os traficantes, por vezes chamados até de terroristas? Bem, talvez o petróleo sob controle americano de alguma forma sirva de "combate", não é mesmo? Não é?
| Líderes do continente na inauguração do "Escudo das Américas" |
Com essa mesma ótica, no inicio de março Trump anunciou uma coalizão de 17 países para combater cartéis no Hemisfério Ocidental, classificando-os como organizações terroristas. Por que isso importa? Na prática, ao designar uma organização criminosa como terrorista, permite ao Estados Unidos realizarem ataques militares unilaterais, violando a soberania desses países que tenham tal "organização terrorista".
Isso facilita o combate físico a essas organizações criminosas que de fato prejudicam e abusam das populações sob seu domínio? Sem dúvidas, pessoas que vivem sob o julgo do tráfico não estão no Estado democrático de direito. Esse é um problema que muitos países da região enfrentam, entre eles o Brasil, que não estão, na maioria das vezes, provendo uma resposta a altura.
Porém, cabe o questionamento: baseado em fatos recentes e históricos, o poder militar americano seria utilizado para combate aos malfeitores ou a interesses próprios? Sim, isso é uma pergunta retórica. Países se guiam por interesses e objetivos, não pelo bem comum e isso naquilo que entendemos como "Comunidade Internacional", na era do feudalismo geopolítico de Trump, muito mais.
A título de curiosidade, entre 2019 e 2023 foram apreendidas 7 mil armas de uso exclusivo militar apenas na região sudeste do Brasil, sendo principalmente calibres 5,56 e 7,62 que entram no país por rotas do contrabando. A principal fonte de origens dessas armas? O Estados Unidos.
Estaria iria eu insinuando que os Estados Unidos deliberadamente contribuíram por ação ou inação no fortalecimento de organizações criminosas por todo continente como parte de uma operação de desestabilização que teria como objetivo final a intervenção militar direta do Estados Unidos? Não, não estou.
O que estou a dizer é menos elaborado do que isso. Os Estados Unidos não fazem o dever de casa, se querem combater o crime que comecem pela sala e não pelo quintal.
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